A Organização das Nações Unidas quer aproveitar a mobilização provocada pela Copa do Mundo de 2026 para ampliar o debate sobre saúde mental entre adolescentes e jovens. A proposta é transformar o futebol em uma ferramenta de pertencimento, convivência e prevenção de transtornos como ansiedade e depressão.
O tema é discutido nesta sexta-feira, 17 de julho, durante um evento realizado pelo Escritório da Juventude da ONU, na sede da organização, em Nova York, nos Estados Unidos.
Batizado de “Um Mundo, Um Jogo, Um Objetivo: o futebol como catalisador para a saúde mental e o bem-estar da juventude”, o encontro reúne representantes de governos, empresas, organizações da sociedade civil e grupos juvenis.
Segundo reportagem do jornalista Lucas Pordeus León, da Agência Brasil, a iniciativa pretende construir uma agenda internacional que associe a prática esportiva à melhoria da qualidade de vida e à criação de ambientes mais seguros para os jovens.
Esporte pode reduzir ansiedade e depressão
A mobilização da ONU ocorre diante de dados considerados preocupantes sobre a saúde mental das novas gerações. Relatório citado pela organização aponta que 1 em cada 7 pessoas entre 10 e 19 anos enfrenta algum tipo de problema relacionado à saúde mental.
O documento também registra um crescimento dos casos de depressão entre adolescentes e jovens adultos nos últimos anos.
Ao mesmo tempo, estudos analisados pela entidade indicam que a participação em esportes coletivos está relacionada a índices menores de ansiedade e depressão, independentemente do país onde a atividade é praticada.
A ONU reconhece, no entanto, que muitos jovens ainda encontram dificuldades para participar de projetos esportivos. Entre os obstáculos estão a falta de espaços adequados, desigualdades econômicas, ausência de políticas públicas e situações de violência ou discriminação.
Nesse cenário, o futebol é apresentado como uma atividade capaz de fortalecer vínculos sociais, estimular a superação de limites e criar uma sensação de pertencimento dentro das comunidades.
Copa Feminina no Brasil pode ampliar debate sobre violência
O legado social das competições também deverá ser discutido durante a Copa do Mundo Feminina de 2027, que será realizada no Brasil.
Durante o evento em Nova York, o coordenador Pedro Trengrouse, da Fifa Master Alumni, defendeu que o torneio realizado no país seja utilizado para fortalecer o enfrentamento à violência contra as mulheres.
Segundo ele, a realização de uma competição feminina de alcance mundial deve ser acompanhada de iniciativas relacionadas à igualdade de gênero, à proteção das mulheres e ao combate ao feminicídio.
A expectativa é que o Mundial não tenha apenas impactos esportivos e econômicos, mas também ajude a colocar questões sociais no centro do debate público.
Bets ampliam preocupação com saúde mental no Brasil
Enquanto a ONU tenta aproximar o futebol da promoção do bem-estar, o crescimento das apostas esportivas on-line representa um desafio para autoridades e entidades de defesa do consumidor.
No Brasil, o uso excessivo das chamadas bets tem sido associado a casos de compulsão, perda de renda, endividamento e agravamento de problemas psicológicos.
O Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor, o Idec, alerta que grandes competições aumentam a exposição da população às propagandas de casas de apostas. O risco não se limita aos apostadores habituais, já que as campanhas publicitárias também alcançam consumidores ocasionais e pessoas em situação de vulnerabilidade financeira ou emocional.
Um levantamento da fintech Klavi, realizado com dados da plataforma Open Finance e uma amostra de 1,2 milhão de brasileiros, apontou que R$ 944 milhões foram transferidos para empresas de apostas durante o período analisado na Copa do Mundo. Somente na quinta-feira, 16 de julho, teriam sido movimentados R$ 17,9 milhões.
Os números mostram como a emoção provocada pelas partidas pode ser explorada comercialmente para estimular apostas frequentes e decisões financeiras impulsivas.
SUS amplia atendimento para jogadores compulsivos
O aumento da procura por ajuda psicológica relacionada às apostas levou o Sistema Único de Saúde a ampliar a oferta de atendimento remoto para pessoas que apresentam comportamento compulsivo.
O Ministério da Saúde destaca que as apostas podem deixar de ser uma atividade recreativa e provocar consequências graves na vida do jogador.
Entre os possíveis danos estão o comprometimento da saúde física e mental, conflitos familiares, isolamento social, dívidas e queda na qualidade de vida.
A discussão proposta pela ONU reforça que o futebol pode gerar benefícios importantes para a sociedade, mas também exige políticas capazes de proteger o público dos riscos associados à exploração comercial das competições.
O desafio será fazer com que o maior evento esportivo do mundo deixe um legado de inclusão, convivência e cuidado, sem que a paixão pelo esporte seja transformada em uma porta de entrada para o endividamento e a dependência em apostas.
Conteúdo reproduzido da Agência Brasil.


