A decisão da Câmara provocou reação imediata, expôs bastidores em Brasília e gerou leituras distintas sobre o impacto no bolsonarismo
A perda do mandato de Eduardo Bolsonaro (PL-SP) começou com uma reação direta do próprio deputado. Nas redes sociais, ele afirmou que “essa história não termina aqui” e disse sentir orgulho do que chamou de “consequências reais” impostas a “ditadores do Brasil”, em referência a ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Mesmo fora do país, Eduardo deixou claro que pretende continuar atuando politicamente a partir dos Estados Unidos, onde está desde fevereiro deste ano.
A declaração veio horas após a Mesa Diretora da Câmara dos Deputados oficializar a perda de mandato de Eduardo e também do deputado Alexandre Ramagem (PL-RJ). A decisão foi publicada no Diário Oficial da Casa e teve como base o cumprimento das regras constitucionais e regimentais. No caso de Eduardo, pesou o acúmulo de 59 faltas não justificadas ao plenário — número superior ao limite permitido. Já Ramagem teve o mandato encerrado por determinação do STF, após condenação no âmbito das investigações sobre a trama golpista.
Bastidores: regra formal, impacto político real
Nos bastidores de Brasília, a leitura é de que a decisão, embora tecnicamente respaldada pelo regimento, carrega forte peso político. O tema foi debatido no programa O Grande Debate, da CNN Brasil, onde o ex-ministro da Justiça José Eduardo Cardozo classificou o episódio como um “baque” para o bolsonarismo. Para ele, a perda dos mandatos não estava “precificada” e representa mais um revés para um grupo político já pressionado por investigações e decisões judiciais.
Cardozo afirmou ainda que Eduardo feriu o decoro parlamentar ao se ausentar do país para, segundo ele, conspirar contra o Brasil e buscar sanções internacionais. Na avaliação do comentarista, o episódio expõe imprudência política e aprofunda o desgaste do campo bolsonarista.
Já a jornalista e ex-senadora Ana Amélia Lemos apresentou uma análise diferente. Para ela, a perda de mandato já era esperada e não altera o cenário político do bolsonarismo. Ana Amélia destacou que a decisão foi administrativa, tomada pela Mesa Diretora, sem necessidade de votação em plenário, justamente por se tratar do cumprimento automático das regras internas da Câmara.
Repercussão: críticas, defesa do regimento e acusações de perseguição
A decisão também repercutiu entre lideranças políticas. O governador de Minas Gerais e pré-candidato à Presidência, Romeu Zema (Novo), defendeu o cumprimento rigoroso do regimento da Câmara. Em entrevista à CNN Brasil, afirmou que as regras precisam ser seguidas “à risca”, para evitar tanto perseguições quanto privilégios.
No campo bolsonarista, o tom foi de crítica. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) classificou a perda dos mandatos como um erro e disse que Eduardo e Ramagem são vítimas de perseguição política. Em publicação nas redes sociais, Flávio questionou a aplicação rígida das regras e comparou a situação dos parlamentares à de magistrados que atuam remotamente, defendendo tratamento semelhante entre os Poderes.
Enquanto aliados falam em injustiça e perseguição, interlocutores do Congresso avaliam que a decisão reforça a sinalização de que ausências prolongadas e condenações judiciais terão consequências institucionais. No fim, a perda dos mandatos expõe não apenas o destino político de Eduardo Bolsonaro e Alexandre Ramagem, mas também as divisões internas e as diferentes estratégias de sobrevivência do bolsonarismo no cenário pós-2022.
Fonte: CNN Brasil