Ponte de R$ 36 milhões desaba no Acre; vítima havia alertado sobre risco minutos antes

Estrutura inaugurada há cerca de dois anos e meio cedeu parcialmente em Sena Madureira; vítima transmitia imagens da ponte momentos antes do acidente.

Uma ponte que consumiu mais de R$ 36 milhões em investimentos públicos desabou parcialmente na noite desta sexta-feira (5), em Sena Madureira, no interior do Acre, deixando quatro pessoas feridas e levantando questionamentos sobre as condições da estrutura. O acidente ocorreu menos de 24 horas após a interdição da passagem por causa de danos identificados por equipes técnicas.

O caso ganhou ainda mais repercussão porque uma das vítimas registrava imagens da ponte pouco antes do desabamento. O juiz aposentado Edinaldo Muniz, de 54 anos, fazia uma transmissão ao vivo nas redes sociais para mostrar problemas na estrutura quando parte da construção cedeu.

Segundo informações divulgadas pelo governo acreano, quatro pessoas estavam sobre a ponte no momento do acidente. Duas delas ficaram em estado grave e precisaram ser transferidas para Rio Branco.

Edinaldo Muniz sofreu traumatismo craniano e lesões internas. Já Antônio Morais Lima Filho, de 36 anos, teve fratura no fêmur e chegou a ser classificado em estado gravíssimo pelas equipes médicas.

Outras duas vítimas, Edinei Muniz, de 51 anos, e Weverton Murieta, de 34 anos, sofreram escoriações e ferimentos considerados leves.

Equipes do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), Corpo de Bombeiros, Defesa Civil e Centro Integrado de Operações Aéreas foram mobilizadas para o resgate e transferência dos feridos.

Relato dramático de sobrevivente

Weverton Murieta, contou que acompanhava Edinaldo Muniz para mostrar uma rachadura na ponte quando a estrutura cedeu.

“Ele perguntou onde era a falha da ponte e pediu para eu ir com ele. Quando eu passei na frente para mostrar, cheguei pertinho e a ponte desabou”, relatou.

Foto: Pedro Devani/ Secom

Weverton disse ainda que caiu no rio e conseguiu escapar pelos destroços.

“Eu desci direto para o fundo do rio. Encostei no fundo do rio, consegui boiar debaixo da ponte e fiquei procurando um canto para sair”, afirmou.

Depois de conseguir subir, ele viu Antônio Morais ferido e pediu socorro.

“Eu vi ele deitado, tinha uns ferros nele. Vi que estava respirando e comecei a gritar: socorro, socorro”, contou.

Estrutura já apresentava sinais de risco

A Ponte Frei Paolino Baldassari havia sido interditada na quinta-feira (4), um dia antes do acidente.

De acordo com o governo do Acre, técnicos identificaram danos estruturais que poderiam comprometer a segurança da travessia. Desde então, o local estava sendo monitorado.

A ponte é considerada uma das principais ligações entre bairros e distritos de Sena Madureira e possui aproximadamente 232 metros de extensão, com duas pistas para veículos e áreas destinadas à circulação de pedestres.

Foto: Divulgação Corpo de Bombeiros – ACRE

Obra custou milhões e agora será investigada

O desabamento também reacendeu discussões sobre a qualidade da obra.

A construção recebeu investimentos superiores a R$ 36 milhões, sendo cerca de R$ 20 milhões provenientes do Departamento Estadual de Trânsito (Detran-AC) e o restante financiado com recursos do governo estadual.

A obra foi executada pelo Departamento de Estradas de Rodagem, Infraestrutura Hidroviária e Aeroportuária do Acre (Deracre) em parceria com uma empresa privada.

Após o acidente, a governadora Mailza Assis esteve no local e determinou a criação de um gabinete de crise para acompanhar a situação.

Segundo a chefe do Executivo, as causas do desabamento serão apuradas e eventuais responsabilidades serão investigadas.

A empresa responsável pela construção também foi acionada para realizar avaliações técnicas emergenciais.


Foto: Pedro Devani/ Secom

Denúncias e suspeitas aumentam pressão

Enquanto os laudos oficiais não são concluídos, relatos de moradores e de pessoas que participaram da construção passaram a circular nas redes sociais.

Um trabalhador que teria atuado na obra afirmou que a estrutura apresentava problemas desde a fase de execução. Segundo ele, havia preocupação com a estabilidade da ponte ainda durante os trabalhos de construção.

As declarações, porém, ainda não foram confirmadas pelas autoridades responsáveis pela investigação.

Especialistas deverão analisar se houve falhas de projeto, problemas de execução, desgaste prematuro dos materiais ou influência de fatores naturais, como erosão das margens do rio, fenômeno conhecido na Amazônia como “terras caídas”.

Sem registro de mortes

Até a publicação desta reportagem, o Corpo de Bombeiros e a Secretaria de Saúde do Acre informaram que não havia registro de mortes nem de pessoas desaparecidas.

Entretanto, cerca de 60% da estrutura teria sido comprometida pelo desabamento, segundo estimativas preliminares das equipes que atuam no local.

A expectativa agora é pela divulgação dos laudos técnicos que deverão apontar o que provocou a queda de uma das obras de infraestrutura mais caras já executadas na região.

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